Não sei dizer ao certo se isso aconteceu no final de um ano ou no começo do ano seguinte, entre setembro de um e fevereiro de outro, por aí. Sei que fiquei muito triste quando Ana Carolina Medeiro de Matos disse que não me amava mais. Na verdade, na verdade, quando ela disse, eu não fiquei triste, porque eu não assimilei, porque era uma realidade que não fazia parte do meu mundo, eu não estava acostumado com ela não me amar assim de repente. Também não fiquei triste quando ela pegou uma mala e botou todas as roupas, quando ela não esqueceu seus pinceis, quando ela não esqueceu de botar os seus livros na mala, não esqueceu seus óculos, sua tesoura de unha, seus perfumes.
Ela levou tudo e eu não fiquei triste porque eu tinha a mais pura e absoluta certeza, e estava tranqüilo com isso, de que ela ia voltar uma semana depois mais ou menos, me dizendo que tinha se enganado, que me amava muito, implorando que eu esquecesse de tudo, que isso tinha sido uma poeira em nossas vida, e entrando casa adentro, repondo os seus objetos em seus devidos lugares, seus livros, seus perfumes, sua coleção de gueixas de porcelana na mesinha do sofá da sala. Os seus pincéis. Que ela ia voltar em uma semana ou duas. Um mês talvez. Dois.
Triste mesmo eu fiquei depois de dois anos mais ou menos. Depois que se tinham sumidos todas as minhas explicações para a não-volta de Carolina. Confesso que não fiquei triste quando tive que me conformar e pensar em quais objetos eu escolheria para repor os lugares vazios deixados por ela. O nosso guarda-roupas que era grande demais e agora só meu, a mesa da sala vazia. A tristeza veio quando eu percebi que não haviam objetos convenientes, que tudo ficaria feio e descabido, que nada seria suficiente pra compor os espaços vazios.
E se eu mudar de casa, pensei, se eu mudar de casa Ana talvez não me encontre para dizer, depois de cinco ou oito anos, doze talvez, que está arrependida e que me ama, que precisa que eu saia do meio da porta para que ela possa entrar e desfazer as suas malas, colocando as suas roupas e perfumes nesse guarda-roupas grande e, sem as roupas dela, tão feio e triste.

