segunda-feira, 18 de maio de 2009

Os espaços que Carolina deixou.

Não sei dizer ao certo se isso aconteceu no final de um ano ou no começo do ano seguinte, entre setembro de um e fevereiro de outro, por aí. Sei que fiquei muito triste quando Ana Carolina Medeiro de Matos disse que não me amava mais. Na verdade, na verdade, quando ela disse, eu não fiquei triste, porque eu não assimilei, porque era uma realidade que não fazia parte do meu mundo, eu não estava acostumado com ela não me amar assim de repente. Também não fiquei triste quando ela pegou uma mala e botou todas as roupas, quando ela não esqueceu seus pinceis, quando ela não esqueceu de botar os seus livros na mala, não esqueceu seus óculos, sua tesoura de unha, seus perfumes. 

Ela levou tudo e eu não fiquei triste porque eu tinha a mais pura e absoluta certeza, e estava tranqüilo com isso, de que ela ia voltar uma semana depois mais ou menos, me dizendo que tinha se enganado, que me amava muito, implorando que eu esquecesse de tudo, que isso tinha sido uma poeira em nossas vida, e entrando casa adentro, repondo os seus objetos em seus devidos lugares, seus livros, seus perfumes, sua coleção de gueixas de porcelana na mesinha do sofá da sala. Os seus pincéis. Que ela ia voltar em uma semana ou duas. Um mês talvez. Dois.

Triste mesmo eu fiquei depois de dois anos mais ou menos. Depois que se tinham sumidos todas as minhas explicações para a não-volta de Carolina. Confesso que não fiquei triste quando tive que me conformar e pensar em quais objetos eu escolheria para repor os lugares vazios deixados por ela. O nosso guarda-roupas que era grande demais e agora só meu, a mesa da sala vazia. A tristeza veio quando eu percebi que não haviam objetos convenientes, que tudo ficaria feio e descabido, que nada seria suficiente pra compor os espaços vazios.

E se eu mudar de casa, pensei, se eu mudar de casa Ana talvez não me encontre para dizer, depois de cinco ou oito anos, doze talvez, que está arrependida e que me ama, que precisa que eu saia do meio da porta para que ela possa entrar e desfazer as suas malas, colocando as suas roupas e perfumes nesse guarda-roupas grande e, sem as roupas dela, tão feio e triste.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Entre a pele do peito e a pele das costas.

Que talvez não fôssemos mesmo o que tanto supomos, e que o meado da verdade estaria, não nesses nossos corpos andando por onde não queremos, nem nessas nossas vozes loucas e desafinadas complacentes com o restante do mundo. Estaria no exato momento em que calamos e, parados, choramos por dentro tudo o que somos e gargalhamos por dentro por tudo de nós que conseguimos salvar dessa birbante humanidade.
Nós somos, Pedro, essas coisinhas mais miúdas, não somos os nossos assuntos, os nossos assuntos são reles frutos mercenários de convenientes cidadãos do século XXI. Não somos os nossos nomes nem a nossa morada, não somos a exposição das nossas vontades, nem céus, nem infernos, nem pedras, nem flores. Somos apenas essa vontade discreta e cotidiana, cada qual com a sua, de atravessarmos um dia após o outro, perpassando todas as esquinas, procurando o que ainda não sabemos e quiçá não saberemos nunca, tentando proteger e reavivar penosamente e pesadamente os nossos sonhos mais calados e mais afundados nisso que chamamos e “a gente”.
Eu rezo, Pedro, eu torço muito, para que consigamos chegar ao final desse marasmo, suados nesses termos pasteis, e desatar os nós dessas gravatas sufocantes, e nos olharmos corajosos, cientes de que você não vai saber o que eu sou nunca, mas que eu não sou isso que você vê e toca, que você não é isso. Que há muito mais coisas entre a pele do peito e a pele das costas do que a nossa vã filosofia é capaz de compreender, adaptando Shakespeare.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

No sol de quase dezembro, eu vou...

Gosto de uva e melancia, um limoeiro no quintal, uma mangueira, uma piscina de plástico em cima da terra, um castelo malfeito. Eu que não via chapéus, via cobras digerindo elefantes. Eu que queria ser desenhista ou astronauta, que queria casar pra sempre e que achava que camisinha se colocava no dedo da mão “porque é muito óbvio, Vanessa, tem todo o formato.”. Que sempre me achei a mais inteligente e que agora não me acho mais e nem quero mais ser a mais de nada que compactue com toda essa conversa mole que as pessoas costumam trazer para ficarem bem na fita. Não quero ficar bem na fita. Eu que subia no alto mais alto das árvores e achava que ia cair só se deus quisesse, e que não subo mais tão alto porque ele pode querer, e muito acho que eu preciso cuidar mais de mim que já caí tanto – e ainda caio pra dentro. Que chorava em filmes e novelas e ainda choro por qualquer bobagem. Que agora vejo apenas chapéus e, não sei por quanto, me envergonho por isso. Que ainda quero casar como antes, que não acho mais que vou ser feliz para sempre e não quero mais achar isso. Quero achar que minha vida vai ser sempre esse descompasso, essa beirada de precipício, esse morre-nãomorre, esse ir sem saber se volta, esse cuidado com as coisas de dizer eu te amo todos os dias, um olhar de despedida, um medo. Quero ter medo pra sempre e que essa seja minha maior coragem. Não quero chegar e sentar e dormir, esse conformo. Medo de amanhã não dar mais tempo, medo de ser igual demais, de esquecer mais do que já esqueci desses meus gostos de uvas e melancias, lambuzada, desses meus sonhos que estão cada vez mais possíveis e eu não quero, dos meus choros furiosos de raiva do mundo, de todos, de todos os que cresceram demais, que falam demais tanta coisa sem importância. Essa falta de importância da vida ainda vai matar todos vocês e a minha raiva é meio pena, meio falta de companhia pra esse fantástico mundo de bob sem volta, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos. Eu quero seguir vivendo, amor. Por que não?

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Demorado holocausto das moscas.

Vou matar. Vou matar todas as moscas da mesa da cozinha, que custa a fazer. Pegar essas cascas de pão de cima da mesa e jogar fora, esquentar o café, pôr mais açúcar. Vou ao mercado comprar algumas coisas para enfeitar a geladeira, com o último dinheiro do mês, meados do mês. Voltar para essa casa limpa, tomar um banho e sentar na cadeira da sala. Vou te esperar na cadeira da sala. Vou perder a novela inteira, perder a hora, o leite à porta, o juízo. Vez em quando me levanto e me olho no espelho, já tão velha e você que demora e demora. Me olho no espelho e penso que eu deveria ter jogado mais um baralho, jogado mais qualquer coisa e ter tido mais sorte. E penso que eu deveria estar mais satisfeita comigo, fazer as unhas e me mostrar para outras pessoas. Te espero para que você venha comigo. Que você segure meu braço, orgulhoso, e saia comigo para que todos os vizinhos vejam minhas unhas feitas.
Que você volte logo, o mais depressa possível, para que eu possa me livrar dessa primeira impressão que eu tento sustentar por tanto tempo: essa geladeira cheia, essa cozinha sem moscas. Para no dia seguinte eu descansar dessa vida que eu levo e deixar as moscas em paz, você pegando o leite à porta, rindo e resmungando, ‘tira essas cascas da mesa e esquenta o café’, e eu levantando com sono, dizendo que eu já vou e eu vou. Esquento descabelada: a segunda impressão que é o que o que sou. E você se acostuma, e você me espera, tão paciente e bonito na cadeira da cozinha, menos limpa.
Mais a cara da gente essa vida crua, esses empecilhos que eu te espero para ter mais força para tornar as coisas como elas realmente são, mais sujas. Esses empecilhos de dinheiro de mês e geladeira vazia, de rugas no rosto e café mais amargo, esse mundo que pede socorro, minha voz que desafina em alguma canção copiada de outros casais mais históricos. Que você não tarde mais que eu não agüento, e bata na minha porta trazendo essa felicidade miúda e roída, cotidiana e mesquinha, que é a que eu quero. Cadeira e espelhos gastos nessa primeira impressão que me pesa.

domingo, 6 de julho de 2008

"Iaiá, se eu peco é na vontade..."

Como eu gostar de suco de cajá com leite, e eu sempre chegar nas lanchonetes, perguntando as variedades de sucos. Você ri. Você já sabe qual eu vou pedir e não entende porque eu sempre pergunto quais que tem, se eu quero o de cajá com leite. E é ele o que eu peço sempre. Como quando eu te pergunto, muito séria, se eu mantenho meu cabelo curto ou longo, vermelho, preto, loiro, você diz “preto e curto”, e eu respondo, depois de pensar menos de um minuto, “Vou deixar assim mesmo, assim tá mais bonito.” Você se estressa com isso, e eu gostaria de te dizer que eu gosto tanto de você, mas tanto, que eu te testo. Você prefere curto e eu o deixo crescer, quero saber se você fica comigo com o meu cabelo desse jeito. E você fica. Mas eu, louca, descontrolada, criança e idiota, vou fazendo tudo ao contrário pra saber se você fica comigo assim, e você não fica, é lógico. Tão humano que é. Quero saber quando vamos estar no mesmo patamar de ilusões/desilusões, quando poderemos nos sentir mais confortáveis dentro dessas nossas pessoas tão diferentes de todas as outras. Quando eu poderei amanhecer e ter certeza que eu posso ser de qualquer jeito, as minhas roupas fora de moda e as unhas roídas, o meu andar não muito sensual, Bridget Jones, todos esses meus planos descabidos de ter mesa de sinuca na sala, biblioteca num quintal enorme, uma outra cachorra chamada Sofia que só vai morrer quando eu morrer, dessa vez. E você, tão não complacente, rindo de mim e pensando que boba que eu sou. E eu sou. Indo dormir mais tranqüila, achando que você gosta dessas minhas idealizações sobre todas as coisas, seja o cabelo preto, vermelho, verde-abacate, que você gosta desses meus assuntos inacabados, compridos, fora de ordem, dessa minha impaciência, desse meu falar sem pensar às vezes, dessa minha mágoa do mundo. Mas você, muito humano que é...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Eu não quero ser o que fica.

Deu um rosa na porta, um rosa do sol de pôr-do-sol.
E ela saiu correndo pela casa, como pra não perder. Como se fosse rápido que o sol sumisse e ela chegasse na calçada e ficasse com aquela cara de quem acena, a pessoa não vê e a gente passa a mão no cabelo, como se a gente tivesse levantado a mão pra passar no cabelo mesmo, assim, do nada. E então ela sempre ia correndo e, no fundo, eu acho que isso era algum trauma de que qualquer coisa importante sumisse, sem mais delongas. Mas o sol tava ali, cara, esperando como se dissesse pra ela ir devagar que a casa nem tava arrumada ainda, que a comida tava por fazer, que o papel voou do móvel para o chão e pra escorregar é um pulo. Que se escorrega, pronto, sol, agora, só no outro dia.
Diziam: devagar.
Mas ela nunca reparava nessas coisas, fazia sem pensar mesmo. Ia correndo com um rosarosarosa da porta na cabeça latejando, destabanada, latejando de bonito que era e se vivesse assim uns 152 anos ela iria correndo. Ou andando mesmo, ou devagar de acordo com a idade... mas o medo de não chegar ia rápido. Sabe esse povo? Esse conjunto pequeníssimo de pessoas que, não adianta, não se acostuma com o tempo das coisas? Que não se acostuma com nada, e não enjoa, e tem um medo enorme que acabe. Que, sei lá, vai que o sol amanhã não apareça, e amanhã nunca se sabe de nada. E deus me livre de num dia desses, ela, acostumada com o rosa da porta, sai logo assim deixando a casa desarrumada mesmo e tantas outras coisas meio importantes, como o telefone que toca, o noticiário sem fim. Pra chegar na calçada e alguma coisa acontecer que seja mais triste do que de costume, e ela ficar com aquela cara de quem fala uma coisa fora de hora e alguém nota e fica aquele mudo constrangedor que eu acho que todo mundo detesta.

Teve até um filme em que um cientista tava explicando pra uma velhinha que tipo: existem dois irmãos gêmeos, aí um vai viajar pra lua, pro espaço, e o outro fica na terra, aí o que viaja pra lua volta mais jovem.
Ao que a velhinha responde: eu não quero ser o que fica.

E ela iria concordar se tivesse assistido a esse filme.
Ela iria pra lua.



quinta-feira, 8 de maio de 2008

Fevereiro.

Vâmo embora, que já é quarta. Deixa eu te levar pra casa, e antes sentar contigo no Bar da Dona Teca, você vai pedir uma água de coco, que o fígado da gente ta destruído, e eu vou dizer, Dona Teca, que mane água de coco, a gente tem cara de quem toma água de coco? Se acaba a gente junto com fevereiro, e é segredo nosso que a gente vive nesse mês uns quinhentos meses mais. Espera que eu vou te falar da gente. Desce uma cerveja Dona Teca. Cerveja não, cerveja é para os fracos. Desce uma Vodca barata. Pronto. Eu não acredito que você ficou desse jeito. Que samba era aquele? Pequeno. Que sorriso era aquele? Quadrado. Esse medo da chuva. Essa sandália alta tão bonita que não vai quebrar e eu morro de pena de você que poderia ta sambando que preste e voltando pra casa comigo agora sem saber de sandália, vergonha na cara. Você teve foi medo demais, e se juntou com eles todos e eu nunca ia imaginar que você ia me olhar com cara de que absurdo essa cabelo desgrenhado, essa cara toda torta, te ajeita menina, olha o povo olhando, sai dessa chuva, fala baixo. Você dança muito bem, na verdade, e te digo, é conforme a música demais pra mim e eu não quero desse jeito, eu não quero. Sabe o pior? Sabe por que eu te trouxe aqui? Por que eu sei demais que eu vou te deixar em casa, você vai me olhar e vai dizer, você não cresce, e eu não cresço mesmo. Você vai entrar em casa, com esse ar superior de pessoa adulta que sabe demais de vida e pessoas, vai chegar no quarto, colocar teu banquinho lilás em frente aquele espelho grande do teu quarto, fechar as portas e janelas, vai parecer uma criança, deixar tudo meio escuro, pegar uma lanterna e colocar na tua cara pra ficar se olhando por quase duas horas inteiras. Vai ficar calada primeiro só olhando essa casca bonita, vai contar todos os cravos, perceber os fiozinhos de veias/nervos/sei lá o quê azulzinhos, fininhos e pequenininhos dos teus olhos, pra saber que isso tudo não é você não, que você não é batom claro, nem cabelo grande, que você não é um falar pausadamente, nem o pensar enquanto o fala, nem essa roupa combinando demais, esse sorriso barato, esse oi como vai tudo bem?, esse gostar de tudo e de todos. Você é uma louca, como eu, uma louca. Você é a bebida no gargalo, a risada alta, a falta de educação para com as pessoas pequenas e as pessoas idiotas chatas e feias, essa nossa falta absurda de caráter, esse caráter absurdo das pessoas, tudo filme. Você é um vou, não sei como volto, e vou, não sei como vou. Você é um querer que o mundo se exploda. Mas acontece que é difícil demais querer que o mundo se exploda. Então você abre as janelas, guarda a lanterna, vai lavar o rosto e sai pra calçada, me perguntando se eu já cresci, se eu já pensei nas besteiras que eu andei fazendo nesse carnaval de merda.